- Alô?
- Russo, deixa eu falar com a Moira.
- O quê?!
- Eu sei que ela está aí. Passa o telefone pra ela.
- Maurão, você enlouqueceu? O que que a Moira ia estar fazendo aqui a esta hora?
- Eu só quero falar com ela, Russo. Não vou brigar, não vou fazer cena...
- Mas o que é isso? Você sabe que horas são?
- Desculpe se interrompi qualquer coisa, mas eu preciso falar com a Moira.
- Maurão. Escuta. São três da manhã, eu estou dormindo, não tem ninguém aqui comigo e muito menos a... Ó Maurão! O que você pensa que eu sou? Você e a Moira são meus melhores amigos!
- A Moira não é só amiga, não é, Russo? Eu sei. Você e ela... - Mas que loucura! Maurão...
- Deixe eu falar com ela!
- Quer saber de uma coisa? Vai à... Se a Moira não está em casa eu não tenho nada a ver com isso. Aqui ela não está.
- Você não sabia, mas eu vi você comprando o brinco no calçadão.
- Que brinco?
- Eu vi! E no dia seguinte o brinco apareceu na orelha da Moira.
- E ela disse que eu dei pra ela?
- Ela não disse nada. Eu vi!
- Maurão...
- Você quer que eu faça uma cena? Então está bem. Estou indo praí agora mesmo. Vamos fazer a cena completa, Russo. Marido traído, revólver na mão, tudo. Te prepara!
Maurão desliga. Russo fica por um momento pensativo. Roberto, deitado ao seu lado, não diz nada.
Finalmente, Russo fala.Não há rancor em sua voz, só decepção.
- Você e a Moira, é, Roberto?
- Por que eu e a Moira?
- O brinco que eu comprei pra você apareceu na orelha dela. - Deve ser um parecido.
- Por favor, Roberto. Tudo menos mentira.
- Está bem, eu dei o brinco, Russo. Mas não pra Moira. Pra Use.
- Pra Use?!
- É, pra Use, minha mulher. Juro.
- E a Use deu pra Moira.
- Será?
- Você sabe onde a Use está agora, Roberto?
- Deve estar em casa, por quê?
- Porque a Moira não está em casa.
- Você acha que a Use e a Moira....
- É melhor você ir embora, Roberto. Estou esperando alguém. - Quem?
- O Maurão vem me matar.
- Eu fico.
- Você vai.
- Está bem.
Roberto levanta da cama, se veste e começa a sair.
- Roberto...
- Ahn?
- Você não gostou do brinco?
"Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros."
Não, Excelentíssimo Senhor Ministro do Superior Tribunal Federal, Gilmar Mendes, não deveríamos ser comparados a cozinheiros, mas talvez a algum produto comercializado nas feiras livres. “Quem quer ser jornalista?”, “Vamos comprar freguesa que a notícia tá fresquinha”.
Concordo Excelentíssimo, quando o senhor afirma que “a formação específica em cursos de jornalismo não é meio idôneo para evitar eventuais riscos à coletividade ou danos a terceiros”. Acrescento a isso que nenhum curso de ensino superior o é, tampouco a finalidade de um curso de jornalismo seja essa. Jornalismo é uma ciência!
Um dos pioneiros a reconhecer tal fato foi o teórico alemão Otto Groth, ao revelar, na primeira metade do século XX, que o exercício diário do jornalismo exige uma metodologia científica no desenvolvimento de uma reportagem, passos que se repercutem independente da sociedade e da sua cultura específica.
Para o jornalista e teórico José Marques de Melo, o jornalismo pode ser definido como “ciência que estuda o processo de transmissão oportuna de informações da atualidade, através dos veículos de difusão coletiva”. Portanto, uma formação básica é fundamental para o exercício do jornalismo.
Mas quem irá questionar a legitimidade da decisão judicial? Eu, estudante de jornalismo do último semestre que um dia acreditou ser, essa profissão, o caminho para termos um mundo melhor, uma sociedade mais justa e digna? Eu, que estudei para ser aprovada em um curso de Jornalismo de uma universidade pública, gratuita e de qualidade? Pra quê? Tudo utopia: nem o curso de jornalismo nem a universidade com essas adjetivações existem. Talvez os meios ditos ‘legais’ devessem se preocupar com esse assunto: educação. Ainda mais quando o referido ministro afirma que “o fato de um jornalista ser graduado não significa mais qualidade aos profissionais da área”. Qual o escopo de uma universidade? Pelo visto nos cursos de direito, tão exigentes e idôneos, estão ensinando a fazer comida.
A decisão do STF foi um golpe sim, mas não apenas para os estudantes de jornalismo ou jornalistas por formação, mas principalmente para a sociedade brasileira. Que jornalismo teremos? Qual jornalismo queremos? Por quê e para que ser jornalista? Qual sentido dessa “profissão”? Que liberdade de imprensa é essa que cala os próprios jornalistas? Meio adequado é a justiça, esse sim é isento de erros ou danos. Pela lógica do ministro Cezar Peluso, teremos agora a garantia de um jornalismo sem deficiência de caráter, retidão e ética. A mim, só restam dúvidas....