Pages - Menu

17 de set. de 2009

A bunda

© Ilana Copque


A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.
Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora -- murmura a bunda -- esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar
A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente
A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem.
Ondas batendo
numa praia infinita.Lá vai sorrindo a bunda.
Vai feliz na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.
A bunda é a bunda, rebunda.


CARLOS DRUMMOND

Dá-me a tua mão

© Imagem da Internet

Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio. (Clarice Lispector)

14 de set. de 2009

Sexta- feira

©Imagem da internet

O relógio da cozinha há muito havia marcado 00h00. Àquela hora, minha única confidente era a velha cachorra, que por vezes continuas, com aqueles olhos onipresentes, que tudo vêem, me recriminou pelas fugas imaginárias desencadeadas durante as sextas-feiras. Desconecto-me do mundo por alguns instantes, e vivo os personagens baratos dos romances de banca de revista, só para ter o que fazer e, esquecer o meu próprio não romântico caso. É divertido ler esses quase fairy tales, entedia-me apenas os finais padrões, sempre os pulo. Mãe solteira de 46 anos, que já passou por inúmeras experiências platônicas, acho tolice acreditar em finais de princesas.

As meninas, não sei por que ainda as chamo assim, dormem desde as 22h. Aos sábados, Amanda, 21 anos, estagia, enquanto a Suely, minha caçula, que está no terceiro ano, tem provas preparatórias para o vestibular, que ocorrerá daqui a três meses. Ambas caminham para sua própria liberdade, embora ultimamente tenham se preocupado com a minha.

Talvez elas pensem que não ouço os sussurros de preocupação. A mais nova, e mais impulsiva, já chegou a vasculhar meu celular atrás do número dele. Aquilo realmente me angustiou, pois com toda intimidade familiar, e por mais que elas acreditem que ele não é meu par ideal, existe entre o respeito mutuo, ou existia até pouco tempo. Nunca revistei suas bolsas ou li suas mensagens. Sempre as deixei bastante à vontade para tomarem suas próprias decisões, apesar de tentar orientá-las através daquilo que considero o melhor caminho.

Cada qual em seu quarto, cada qual com suas intimidades. Por hora, parecemos desconhecidas, moradoras de um mesmo cortiço, onde apesar de conhecermos, quando as portas se fecham, damos vazão a nossa bagunça e ânsia interior. Diante da solidão, visualizamos a o que realmente somos. Por vezes me assustei ao deparar com o que me tornei.

A madrugada é meu momento paz, onde o único barulho provem do andar de cima. Tenho a infelicidade de ter um porco, viciado em sexo e ignorante feito o diabo, como vizinho. As meninas até que gostam de dar risada dos gemidos que as vagabundas dele fazem. Será que ele se vale que no condomínio a maioria dos inquilinos são idosos e, que a audição deles não funciona bem? No momento, só quero me desligar dessa medíocre vidinha. Uma necessidade desfrutada apenas as sextas-feiras.


13 de set. de 2009

Maglore


Um colega meu, Nery, faz parte da Maglore e, há algum tempo me enviou o link pra que eu visitasse o Myspace da banda, mas apenas hoje consegui e lembrei de acessar. Curti demais o som, por isso fica ai a dica pra quem quiser ouvir algo legal nesse domingão.


Formada em 2009, a Maglore, cujo nome pode ser um trocadilho abstraído de "Minha glória", do inglês "My glory" (e também um nome de tribo africana ) propõe a sinestesia musical entre cores e som, trazendo elementos musicais de lugares diversos do mundo, como a mesclagem do folk e do rock britânico com harmonias latinas e letras nostálgicas, em referência aos melódicos cantores de rua, cariocas dos anos 30. O que se vê é um Rock Tropical, um som em cores. A banda lançou no fim de agosto de 2009 seu primeiro EP, produzido pelo polivalente Jorge Solovera. Aos cuidados das minúcias do entusiasta Eric Pretti [ teclado, escaleta ] a irreverência criativa de Nery Castro [ contrabaixo ] e a firmeza serena de Igor Andrade [ Bateria ] é que Teago Oliveira [ Guitarra, Voz ] reune o grupo para tornar séria a brincadeira mais divertida do mundo: Fazer um som.

http://www.myspace.com/maglorebanda

11 de set. de 2009

Aportados



Em algum lugar próximo a Península de Marau/ Costa do Dendê- BA


4 de set. de 2009

Fim de tarde

© Imagem da internet

Eu moro no mesmo prédio em Salvador há cinco anos. Nesse meio tempo, o som que por vezes embalou minhas tardes e atrapalhou o meu sono, foi o de um saxofone. Creio que acompanhei a rotina de desenvolvimento do artista, que ainda hoje toca o instrumento. Suponho que seja um rapaz, não tenho certeza, mas também não há uma razão específica para tal pensamento, é apenas o que gosto de imaginar, um jogo sem sentido. Talvez eu siga a mesma linha de raciocínio para os nome das músicas: a maioria não tenho nem noção de onde saiu e, para torná-las mais intimas, dou-lhes apelidos. Énessa hora que penso em quem as toca, nada que me faça perder o sono.


Nem sempre admirei o som desafinado que, sem pedir licença adentrava o apartamento. Quando eu estava fazendo algo, a “zuada” me deixava inquieta. Nessa época, o rapaz certamente havia acabado de adquirir o instrumento, e eu, impaciente, não via a hora dele terminar o ensaio ou pagar uma hora em um estúdio. Hoje, de passagem pela minha terra natal, sinto falta até do cheiro de mar, mesmo ainda evitando as praias. Sozinha em casa e rodeada pelo silêncio, gosto da intromissão produzida pelo saxofonista, agora ele merece o título. O som e o tom me fazem bem, embalam meus saudosos fins de tarde.