Olheiras e bocejos são rotineiros, cochilo quando mal acordei. O confortável pijama é o meu companheiro nessa espera de um milagre. As horas me burlam. Faço as contas, acordo aos pingos, sonho com números e ouço uma sinfonia de despertadores. A cama, o sofá, a cadeira... o carro vai no balanço da cantiga de ninar, convidando-me a fechar os olhos. Chamo nomes em minha incongruência, penso em diálogos que não sei se existiram. O dia passa encoberto por uma leve névoa, e eu cruzo esse triste caminho em minhas pantufas azuis e felpudas. O estado zombie dura enquanto a luz do sol se faz presente. Do meu quarto ouço vozes e tento manter o horário. Há vida dentro da casa e fora dela. Há o movimento enervante , energia fluída e palpável, quando tudo o que quero é desligar o mundo e diminuir o ritmo. A noite me brinda com uma vitalidade que provem das profundezas do inferno. Os olhos vão vermelhos, mas o corpo está desperto. A insônia mantém minha mente acesa, enquanto apelo aos chás, aos florais e à dança da chuva. Mandingas me interessam. Troco a roupa por outro...pijama? As horas passam. Leio versos, leio imagens, leio livros, a bíblia, as receitas de bolo e a bula. As horas passam. Não aguento mais olhar para o computador. Cadê as vozes enervantes? Há vida na televisão e um leve ronco de quem se deleita com o descanso. As horas passam. Há paz, o tédio, o barulho da geladeira e enfim sono, cansaço. Feliz, fecho os olhos. Três horas depois antecipo até mesmo o despertador e me torturo com um banho gelado. Já não sinto fome e a luz me ofusca, devo mesmo ter me transformado em uma criatura das trevas, só não sei quando isso ocorreu, já que eu estava acordada e nada vi.
29 de ago. de 2012
Olhos vermelhos e pantufas
Olheiras e bocejos são rotineiros, cochilo quando mal acordei. O confortável pijama é o meu companheiro nessa espera de um milagre. As horas me burlam. Faço as contas, acordo aos pingos, sonho com números e ouço uma sinfonia de despertadores. A cama, o sofá, a cadeira... o carro vai no balanço da cantiga de ninar, convidando-me a fechar os olhos. Chamo nomes em minha incongruência, penso em diálogos que não sei se existiram. O dia passa encoberto por uma leve névoa, e eu cruzo esse triste caminho em minhas pantufas azuis e felpudas. O estado zombie dura enquanto a luz do sol se faz presente. Do meu quarto ouço vozes e tento manter o horário. Há vida dentro da casa e fora dela. Há o movimento enervante , energia fluída e palpável, quando tudo o que quero é desligar o mundo e diminuir o ritmo. A noite me brinda com uma vitalidade que provem das profundezas do inferno. Os olhos vão vermelhos, mas o corpo está desperto. A insônia mantém minha mente acesa, enquanto apelo aos chás, aos florais e à dança da chuva. Mandingas me interessam. Troco a roupa por outro...pijama? As horas passam. Leio versos, leio imagens, leio livros, a bíblia, as receitas de bolo e a bula. As horas passam. Não aguento mais olhar para o computador. Cadê as vozes enervantes? Há vida na televisão e um leve ronco de quem se deleita com o descanso. As horas passam. Há paz, o tédio, o barulho da geladeira e enfim sono, cansaço. Feliz, fecho os olhos. Três horas depois antecipo até mesmo o despertador e me torturo com um banho gelado. Já não sinto fome e a luz me ofusca, devo mesmo ter me transformado em uma criatura das trevas, só não sei quando isso ocorreu, já que eu estava acordada e nada vi.
22 de ago. de 2012
Vai saber?
Eu guardo música enquanto passeio pelo
jardim. Sinto a brisa, sinto o cheiro... reparo as cores, o pouco movimento e o tempo que passa diante dos
meus olhos. Hoje, nada do que faço está errado, pois já não me importo. Os
paradoxos me complementam quando ando tão cheia de tudo, abusada desse quase
sempre. Palavras, pés descalços, peripécias, pleonasmos, paisagens, paixão,
paixão...ECOA. O cabelo vai solto e esvoaçado, cheio, natural. Que olhem,
pois sei que só eu vejo. Não sorrio, apenas vejo. Poupo. Ando comigo
mesma, apenas aceitando. O abraço é solitário e vai ao meu alcance, à minha medida. As mãos vão soltas, acompanhando o compasso. A melodia é silêncio em tons crescentes. O
contraste no branco vira arco-íris. A folia vai condensada na quietude, no fim que
é começo, na reticencias avassaladora de quem bem conhece os três pontos seguidos. Ansiedade,
arritmia, afinidades...tudo segue a corrente.
1 de jul. de 2012
São Pedro, Viúvas e Tradição
Na manhã do dia 29 de junho
eu acordei com um atípico: “...e aonde compro milho?”. A pergunta foi feita em
alto e bom tom, por isso o meu despertar assustado. Ao verificar qual o motivo
daquela zuada, encontro minha família reunida para o café, decidindo os
preparativos para o festim de São Pedro. Minha mãe, que não mora aqui em Petrolina, chegou durante a madrugada e já encabeçava os afazeres. Àquela hora, a fogueira já havia sido
comprada. Aos 91 anos, minha avó Tereza reluzia de felicidade por
mais uma vez ter os filhos em casa.
Tradição, essa é a palavra
que norteia a minha família quando chega o final do mês junino. Recordo que desde menina era essa mesma euforia e agitação. Eu sempre assisti dona Tereza celebrar
o 30 de junho, dia de São Pedro, também protetor das viúvas. Todo ano, o
genro João doa uma fogueira à matriarca, para que ela possa celebrar. Como deu
pra perceber, a história é mais velha do que a minha existência, pois nem
cheguei a conhecer o meu avô, apesar de estar presente nas comemorações em sua
homenagem.
A fogueira foi acesa no
início da noite. Desde então, apesar do seu corpo frágil, minha avó esteve preparada
para receber os seus convidados. O churrasco já queimava na brasa, o forró pé
de serra tomava conta do ambiente, e a mesa estava repleta de delícias do
período, como macaxeira, bolo de milho, canjica, amendoim e licores variados. Assim
como eu fiz um dia, as crianças, ao redor das labaredas, estouravam os seus
fogos.
Não sei por que São Pedro é
o protetor das viúvas. Por curiosidade, interroguei algumas tias sobre o
motivo. Elas também não sabiam a resposta. Achei o fato engraçado, pois, apesar
de não saber ao certo o pretexto, encaramos o momento como tradição: o pai da
minha avó acendia uma fogueira pela sua finada esposa, e dona Tereza continua
acendendo essa chama pelo meu avô Adelmar. Ao fim, preferi não ir a fundo em
minhas indagações, para que o festejo siga exatamente do mesmo jeito: mágico e
sem respostas. Para os familiares, a essência do festim é reunir os parentes e
amigos. Eu gosto mesmo é do tom alaranjado das ruas, iluminadas pelas
fogueiras; gosto da correria das crianças e a fumaça do estouro dos fogos;
gosto das conversas paralelas, gosto dos sabores; gosto, principalmente, da
razão para comemorar. O São Pedro pode ser menos colorido que o São João, porém,
para nós, é mais acalentador.
Durante a festa, como
apreciadora participante, eu “pescava” algumas conversas ao meu redor. Foi assim que ouvi uma das minhas tias comentar, que no ano seguinte não
haveria comemoração, por conta da bagunça na casa. Sem compreender aquela justificativa
esdruxula, prontamente interroguei a maior interessada no evento, se ela deixaria
que o ritual acabasse. Minha avó, apesar da dificuldade na fala, fruto de um
problema na garganta, de forma enfática respondeu: “Só vai acabar quando eu
morrer!”. Do outro canto, outra tia fez questão de complementar: “Nem quando
ela morrer, pois aí vamos fazer a fogueira em sua homenagem”. Cá com os meus
botões, eu apreciei aquela resposta. No futuro vamos reinventar a roda para
manter acesa a tradição.
Em um tom sereno e
apreciando as labaredas, minha avó continuou o seu embalo na cadeira de balanço.
Na sala, de maneira destoante do resto da decoração, o retrato pintado do meu
avô mirava os inúmeros convidados, que disputavam o espaço. Ao lembrar o velho
Adelmar, e levando em consideração quase três décadas desde o seu falecimento, perguntei
a dona Tereza, se naquele dia ela ainda recordava o meu avô. A velhinha olhou
para a aliança, ainda presa no dedo enrugado, voltou a encarar a fogueira, e
respondeu de forma engasgada: “Eu ainda sinto falta dele”. Depois de certo
tempo ao seu lado, em silêncio, por respeito às suas memórias, cheguei à
conclusão que além de alegria, o ambiente estava repleto de saudade.
21 de jul. de 2011
No parque
Eles em passos, em um
dia agradavelmente ensolarado. Ela pé direito, asfalto; ele pé esquerdo,
ladrilhos. Ela vide bula, ele encarando o mundo. Ela preto no branco,
lenço no cabelo, saia tulipa e atitudes blasé. Ele em vermelho, calça
folgada e, talvez, romântico. Ela gostava de gatos, ele nem comia
espetos. Ele tomava vitaminas pela manhã, ela não suportava café. Ela
enxergava o mundo através de lentes grande angular, ele era míope. Ela
estudava a noite, ele trabalhava durante a tarde. Ela era simpatizante
de Nietzsche, ele ouvia Chico Buarque.
Eles
de folga, era sábado. Ela chegou no parque ao norte, ele entrou ao sul.
Ele de tênis verde, atitudes apressadas; ela de sapatilha lilás e meia
calça.
Eles no
centro do parque. Ele no banco direito, ela no esquerdo- lado a lado.
TEMPO- a brisa corre e os pássaros cantam. Ela é atenta à movimentação,
ele está em pensamentos. Eles se olham pela primeira vez- IMPRESSÃO. Ela
acha que o garoto ao lado tem olhos encantadores. Ele, a princípio,
visualiza apenas uma boca desproporcionalmente grande. Ela não gosta do
cabelo comprido do loiro ao lado; ele acredita atrativos os dedos
delicados daquela ruiva. Eles se encaram e não veem contorno, viram o
rosto em oposição. Ela enxerga o mundo em variáveis, ele vê apenas o preto e o branco. Eles se levantam em sincronia. Ela vai para o esquerdo, ele para o direito. Cruzam-se. Os
pés são simultâneos. Um passo, quatro passos, três segundos
do relógio e a vida toda para o desencontro. Deles nem passou pela
cabeça combinação, mas gostavam de batata doce.
9 de jul. de 2011
Em caixa alta e negrito
-Dês....Tê!- falou apontando
-Dês... dro...- Respirou fundo, a fim de aliviar as palavras. Soprou o nada, em um muxoxo, desistiu de algo e agitou as mãos. Pausadamente começou qualquer outra fala que, para os de fora, parecia qualquer outra incongruência:
-Tra...tre...tri...tro...tru- puxou o ar, pensou em lhufas, recordou a fonodióloga abrindo e fechando sua boca de peixe. Aquela era a hora de mal dizer o exercício que mais lhe lembrava uma metralhadora. Teve vontade de fazer um gesto obsceno, mas os dedos rangiam e pediam descanso.
Olhou para os estúpidos que tentavam predizer o seu não dizer, como em um jogo de mímica. Arranhou a pele em um sinal de asco pela sua velhice. Deu pausa... pausa... pausa... pausa... Empenhando força, em uma expressão que parecia que lhe rasgariam as rugas, quase gritou:
-Dês...li a DROGA d... Tê-Vê
O som saiu esganiçado e rouco, no entanto, foi o suficiente para os mais animados com o jogo mandarem a doce velhinha sentar no sofá.
20 de jun. de 2011
Pernas
Ainda sonolento, o sol berrava a sua chegada, expandindo, através da escuridão, os raios luminosos que prenunciavam um novo dia. Agitado pela tempestade da madrugada, com ondas bruscas, o mar molhava a face do astro rei que, em sua passagem, rabiscava de laranja aquela extensão imensamente azul .
Acostumada a acordar cedo, Socorro, a Fialho do Rodrigues, observava atenta o belo espetáculo da natureza. Para ela, Deus, de bom humor, sentado em sua poltrona celestial, pintava mais um quadro diário.
Com as curtas pernas para fora da janela de sua casa, aquela, apelidada de Corrinha, brincava com a água salgada que lhe fazia cócegas nos pés. O oceano se estendia até a porta da senhora, mas não entrava sem permissão. Do lado de dentro, as filhas de Socorro dormiam, enquanto a mãe se deliciava com o mar que tão raramente vinha lhe visitar. O cheiro mariscado, o som das ondas, tudo contribuía para que ela se sentisse calma e relaxada, algo diferente da sua rotina enfadonha e completamente rotina.
Diante desse conjunto quase bucólico e meio surrealista, a morena, quase muito baixa, avistou não muito longe de onde estava, um animal meio peixe, quase cavalo. As barbatanas do estranho ser eram douradas e se moviam com leveza pelas águas cintilantes. Os olhos que encaravam Corrinha eram redondos e não piscavam, a face do quase peixe era puxada para frente, em uma composição que mais lembrava o focinho de um equino. Atraído pelos pés que dançavam do lado de fora da casa, o animal se aproximou.
Socorro foi mais rápida do que sua rapidez corriqueira. Enquanto o ser ia ao seu encontro, aparentando estar muito animado para perceber que todo o seu volume em nada era simpático, a senhora já se encontrava dentro da residência, não muito bem acomodada em cima do sofá, mas se achando segura o suficiente para soltar aliviar o folego. Sua calma não durou nem um segundo, já que o animal conseguiu saltar pela janela, evidenciando longas patas com cascos que sapateavam pela casa, produzindo um som de galope.
Não demorou muito para que o meio-peixe focalizasse a tal da Rodrigues. Em câmera lenta, ela viu quando o bicho a visualizou e correu ao seu encontro, balançando uma longa calda de pelos macios, que no pequeno percurso conseguiu ensopar o seu tapete persa. Com a expressão congelada, demonstrando pavor pela incongruência daquele instante, ela encarou a face do bizarro ser. Antes que ele a alcançasse, Socorro viu tudo se tornar branco, uma neblina suave. De repente, ela se sentiu rodopiando, sugada, e de longe identificou o enervante despertador do seu celular. Com a respiração pesada, como quem havia acabado de correr uma maratona, ela se levantou rápido, ao mesmo tempo em que abria os olhos. Piscou alguns instantes, meio perdida e se recuperando do susto.
-Realidade!- Disse em um quase sussurro, diante de sua janela, distante do mar. Sim, aquele era um sonho bizarro e não existia um tapete persa. Estava aliviada!
Obs: Esse na verdade foi um sonho que minha mãe teve.. achei interessante e o registrei, pra ela nunca mais esquecer que além dos peixes nadarem e voarem, eles também podem cavalgar.
20 de mai. de 2011
Tudo muito igual
Secou, sumiu, está vazio.
Não derrama, não pinga, não forma...
Não enche!
Falta umidade, viscosidade...
Falta lubrificação!
Já não passa por entre os dedos,
Já não flui pela língua,
já não acompanha as lágrimas ou sorri feito os olhos.
Já não canta feito dança,
Já não rima.... afinal, nunca rimou.
A coisa não vive, tão pouco morreu.
Esta na inércia, fecundando.
Está no vermelho esperando o verde.
Está na caverna,
Está no silêncio das coisas caladas, diante das ações gritantes
Não dorme, não dorme, não durmo!
Espero a inspiração chegar.
Rego o mar com o chá das 18h00.
Não assisto novela, tão pouco leio o jornal.
Tudo está tão assim: passando.
Tudo está tão assim: igual.
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