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20 de out de 2010

Sobre um dia quente

“38 graus? 40 graus?” Naquele dia insuportavelmente acalorado, aquela figura, como várias outras figuras naquela hora, naquela cidade, perguntava-se a quanto ia a temperatura. Deitada sobre a cama, com um vestido salpicado por gotículas de suor e suspenso para além das coxas, a morena tentava se concentrar na leitura do jornaleco da igreja. Da janela do seu quarto de paredes bege provinha apenas claridade, nada de vento, por isso a cortina permanecia fechada a fim de bloquear os raios solares. O ambiente ganhava a tonalidade alaranjada do tecido que cobria a enorme vidraça, os objetos transpiravam diante do tom avermelhado. Como era domingo, todos da casa haviam saído para aproveitar o dia. Naquele cubículo ouvia-se apenas o ventilador, o jornal sendo manuseado e as moscas que disputavam a carne suada ali estendida. A mão da moça dançava pelas pernas, braços e busto, as unhas prensavam água salgada e epiderme na tentativa de afastar os insetos indesejados. A brisa que circulava no quarto era quente e seca, nem o balde com água, ao lado da cama, amenizava a sensação de abafamento. Em menos de dois minutos, sempre com o espécime de livreto em mãos, a figura havia trocado de posição seis, talvez sete vezes. O silêncio preenchia a casa causando certo desconforto naquela que já estava desconfortável. Cansada de tentar manter a concentração na leitura sobre o papa, o bispo, o padre ou qualquer outra personalidade católica, ela largou o jornal no criado mudo, por cima da imagem de um santo qualquer que sua mãe insistia em deixar no seu quarto. Em um ato de impaciência a garota arrancou a vestimenta azul de corte recatado. Apenas de calcinha, deitou de cara para o ventilador e se rendeu ao calor, a secura, ao sufoco de um dia mais quente que o inferno.


Ilana Copque

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