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28 de jun de 2009

O Brinco...

- Alô?
- Russo, deixa eu falar com a Moira.
- O quê?!
- Eu sei que ela está aí. Passa o telefone pra ela.
- Maurão, você enlouqueceu? O que que a Moira ia estar fa­zendo aqui a esta hora?
- Eu só quero falar com ela, Russo. Não vou brigar, não vou fazer cena...
- Mas o que é isso? Você sabe que horas são?
- Desculpe se interrompi qualquer coisa, mas eu preciso falar com a Moira.
- Maurão. Escuta. São três da manhã, eu estou dormindo, não tem ninguém aqui comigo e muito menos a... Ó Maurão! O que você pensa que eu sou? Você e a Moira são meus melhores ami­gos!
- A Moira não é só amiga, não é, Russo? Eu sei. Você e ela... - Mas que loucura! Maurão...
- Deixe eu falar com ela!
- Quer saber de uma coisa? Vai à... Se a Moira não está em casa eu não tenho nada a ver com isso. Aqui ela não está.
- Você não sabia, mas eu vi você comprando o brinco no cal­çadão.
- Que brinco?
- Eu vi! E no dia seguinte o brinco apareceu na orelha da Moira.
- E ela disse que eu dei pra ela?
- Ela não disse nada. Eu vi!
- Maurão...
- Você quer que eu faça uma cena? Então está bem. Estou indo praí agora mesmo. Vamos fazer a cena completa, Russo. Ma­rido traído, revólver na mão, tudo. Te prepara!
Maurão desliga. Russo fica por um momento pensativo. Ro­berto, deitado ao seu lado, não diz nada.
Finalmente, Russo fala.Não há rancor em sua voz, só decepção.
- Você e a Moira, é, Roberto?
- Por que eu e a Moira?
- O brinco que eu comprei pra você apareceu na orelha dela. - Deve ser um parecido.
- Por favor, Roberto. Tudo menos mentira.
- Está bem, eu dei o brinco, Russo. Mas não pra Moira. Pra Use.
- Pra Use?!
- É, pra Use, minha mulher. Juro.
- E a Use deu pra Moira.
- Será?
- Você sabe onde a Use está agora, Roberto?
- Deve estar em casa, por quê?
- Porque a Moira não está em casa.
- Você
acha que a Use e a Moira....
- É melhor você ir embora, Roberto. Estou esperando alguém. - Quem?
- O Maurão vem me matar.
- Eu fico.
- Você vai.
- Está bem.
Roberto levanta da cama, se veste e começa a sair.
- Roberto...
- Ahn?
- Você não gostou do brinco?

***

Luis Fernando Verissimo
Comedias da Vida Privada



26 de jun de 2009

Hilaridade

Imagem: Andrea Penteado


SE ESTUDO NÃO PAGO

SE PAGO NÃO ESTUDO



Ana- “Legal”, risos

Lili- “Não vi graça”

Ana- “Isso é porque você não entendeu”

Lili- “Sou feliz rindo do que não entendo”



24 de jun de 2009

São João






Pelourinho. Centro Histórico de Salvador
arrumado para o São João.



22 de jun de 2009

Alma


"Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros."

Clarice Lispector

18 de jun de 2009

Diplomá(ticos) do cozer

Não, Excelentíssimo Senhor Ministro do Superior Tribunal Federal, Gilmar Mendes, não deveríamos ser comparados a cozinheiros, mas talvez a algum produto comercializado nas feiras livres. “Quem quer ser jornalista?”, “Vamos comprar freguesa que a notícia tá fresquinha”.

Concordo Excelentíssimo, quando o senhor afirma que “a formação específica em cursos de jornalismo não é meio idôneo para evitar eventuais riscos à coletividade ou danos a terceiros”. Acrescento a isso que nenhum curso de ensino superior o é, tampouco a finalidade de um curso de jornalismo seja essa. Jornalismo é uma ciência!

Um dos pioneiros a reconhecer tal fato foi o teórico alemão Otto Groth, ao revelar, na primeira metade do século XX, que o exercício diário do jornalismo exige uma metodologia científica no desenvolvimento de uma reportagem, passos que se repercutem independente da sociedade e da sua cultura específica.

Para o jornalista e teórico José Marques de Melo, o jornalismo pode ser definido como “ciência que estuda o processo de transmissão oportuna de informações da atualidade, através dos veículos de difusão coletiva”. Portanto, uma formação básica é fundamental para o exercício do jornalismo.

Mas quem irá questionar a legitimidade da decisão judicial? Eu, estudante de jornalismo do último semestre que um dia acreditou ser, essa profissão, o caminho para termos um mundo melhor, uma sociedade mais justa e digna? Eu, que estudei para ser aprovada em um curso de Jornalismo de uma universidade pública, gratuita e de qualidade? Pra quê? Tudo utopia: nem o curso de jornalismo nem a universidade com essas adjetivações existem. Talvez os meios ditos ‘legais’ devessem se preocupar com esse assunto: educação. Ainda mais quando o referido ministro afirma que “o fato de um jornalista ser graduado não significa mais qualidade aos profissionais da área”. Qual o escopo de uma universidade? Pelo visto nos cursos de direito, tão exigentes e idôneos, estão ensinando a fazer comida.

A decisão do STF foi um golpe sim, mas não apenas para os estudantes de jornalismo ou jornalistas por formação, mas principalmente para a sociedade brasileira. Que jornalismo teremos? Qual jornalismo queremos? Por quê e para que ser jornalista? Qual sentido dessa “profissão”? Que liberdade de imprensa é essa que cala os próprios jornalistas? Meio adequado é a justiça, esse sim é isento de erros ou danos. Pela lógica do ministro Cezar Peluso, teremos agora a garantia de um jornalismo sem deficiência de caráter, retidão e ética. A mim, só restam dúvidas....

Por Silvana Costa
Multiciência

17 de jun de 2009

15 de jun de 2009

Lar sem nome- Tertúlia Virtual


Sou peixe em mar aberto, nadando sem lenço e sem documento. Minha casa é residência quando o silêncio se faz presente. O barulho só entra quando convidado, geralmente acompanhado por minha própria falação.

Durmo e acordo em espaços diferentes, apesar do corpo permanecer parado. Aonde pertenço? Pertenço ao lugar algum, aquele que me acolhe quando faz sol e preciso de uma praia, quando chove e quero um bom livro, quando estou triste e necessito de dengo. Aquele que quando eu quero é minha morada sólida e sem muros, minha bonita casa multicolorida, lar sem nome, no entanto, lar, doce lar.


http://tervirtual.blogspot.com/

13 de jun de 2009

“Dame un tango”




Gosto cálido e envolvente
Rodopios cortantes e sensuais
Vermelho no preto, pernas entrelaçadas
União flutuante do momento sem tempo

“Dame un tango”
Dá-me a palpitação erótica e os olhares que acariciam
Dá-me a música que é ato e celebra a dor do conflito
Que erremos os passos!

Unidos e frenéticos
Apenas dois corpos
Embriagados pela singularidade do foco de luz
Incentivados por mãos clandestinas
“Dame un tango”




[Ilana Copque/

11 de jun de 2009

Amor sem sentido


Amo o meu amor construído, o meu amor amável, o meu amor só dele, o meu amor não romântico, patético e extremamente apaixonado. Amo os sorrisos mais bestas e sinceros, amo as carícias de que tanto sinto falta, amo porque simplesmente e inexoravelmente amo, e amo mais ainda quando ele me acha imperfeita.



8 de jun de 2009

Tempo




Não tenho tempo

Do tempo eu tenho nada

Sinto falta daquele tempo

Em que eu tinha tempo de ver o tempo passar

Tempo, tempo, tempo

Desbota o caminho e prossegue


5 de jun de 2009

Cachorro que late e bica

Apesar de nutrirmos uma relação de ódio e ódio, considero a cachorra pertencente a minha avó, o bicho mais interessante que já vi em toda a minha vida. Ela pia, corre feito uma galinha, toma café com leite, almoça macarrão, entra no banheiro para tomar banho, come seus parentes (adora gema de ovo), e me bica às 7h00, quando decido dormir na casa da minha querida avózinha.


Todos adoram a fulana, conhecida em seu gueto como Piquitita ou Guenguirra. Ela chegou ainda filhote, voando de Deus sabe onde. Na verdade, a dita cuja nem tinha pena direito, minha tia a encontrou tomando água com sabão, na bacia de suas calcinhas. "Bicho ruim não morre".


Acharam ela bonitinha e com cara de fêmea. O cão tem um distúrbio de gênero, pois eu ponho a minha mão no fogo que aquilo não é um animal do sexo feminino. A natureza foi cruel com os pássaros, não lhes deu uma genitália protuberante. Alguém já viu periquitos cruzando? Piquitita (o) estica o pescoço, só os homens têm gogó!


O troço verde conquistou a todos na família, menos a mim, já que sempre ela me bica e sempre respondo com um tapa. Admito que melhor cachorro não há! Se algum ladrão resolver entrar na casa da minha avó, ele receberá uma bicada dos infernos e nem vai saber o que o atingiu. Piquitita desenvolveu as pernas, ao invés das asas. Ela vive solta, defecando os sofás, comendo as tomadas, leques, bolsas, sandálias e todo tipo de coisa que encontrar pela frente.


Um dia, minha avó me chamou pra ver se havia uma cobra em baixo do carro do meu tio. Piquitita estava lá. Foi um momento inesquecível, quase pensei que ia voltar a sentar na mesa, sem ter que retirar os pés do chão para não ser bicada. No entanto, a cobra foi apenas uma ilusão do olho já manco do meu adorado ente materno.


Se Marley rendeu milhões para seu dono, Piquitita só me causou dores de cabeça. O que ainda me alegra é o fato dela dormir numa jaula. O bicho late a noite toda, e arrasta o bico como um cárcere com sua caneca, em momentos de agonia.




"Temos a arte para não morrer da verdade"

Friedrich Nietzche