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22 de out de 2009

Augusto

© Imagem da Internet

Horário de pique em Salvador. Fazia apenas alguns minutos, que a agitação no centro da cidade, com um pontapé certeiro, havia atingido o Augusto. Quando abriu os olhos e se recuperou do sobressalto, já não era possível identificar aquele que tinha lhe atingido. Com as mãos ainda úmidas, devido à chuva da noite anterior, esfregou os olhos a fim de se acostumar com a claridade excessiva, daquele dia estranhamente ensolarado. Desde ontem não comia nada, e o som desafinado produzido pelo seu estômago, que reclamava, embalou uma noite iluminada por trovões. De forma vagarosa, Augusto se levantou. As pernas, com sinais explícitos de osteoporose rangeram. O corpo velho já não funciona como antigamente, quando ainda tinha fôlego para correr atrás de alguns trocados. Mal havia terminado de se erguer, e uma alma piedosa lhe jogou umas moedas que rodopiaram pelo chão, brilhando feito ouro vivo. Abaixo-se para pegá-las. 20 centavos. Tão era piedosa a alma, que arderia no inferno por fazê-lo se curvar por tão pouco. Ao levantar-se novamente, todos os seus ossos reclamaram o esforço excessivo.


O suor que salpicava o velho rosto se misturava com a sujeira encrostada de dias sem um banho digno. Com os pés descalços e os fios de cabelo cinza emaranhados, Augusto se sentou no primeiro banco público a vista. A essa altura do campeonato, os camelôs tentavam atrair a clientela apressada, com músicas de sucesso, apresentadas a todo volume. Aquela bagunça sonora, que um dia animou as manhãs de Augusto, agora não passava de um barulho desconexo e longínquo. Ele era meio surdo, uma lembrança desgostosa de um momento de violência e sufoco nas ruas.


Inquieto, o senhor, que nunca soube a data exata do seu aniversário, começou a sacudir uma lata com as duas moedas que ganhou há poucos instantes. Com aquele dinheiro, já era possível comprar um pão e apaziguar um pouco a tormenta da fome. No entanto, precisava de algo para produzir som, já não tinha forças para pedir. Implorou quase toda a vida, e foi por falta de opção. Não gostava da sensação humilhante.


Enquanto o tempo teimava em não passar, Augusto observava os prédios altos e as construções antigas. O mundo girava feito roda-gigante, e ele permanecia ali, admirando aquela paisagem nem um pouco moderna. Por instantes, esqueceu o quão invisível era para os transeuntes que esbarravam em si, e pareciam querer passar por cima de sua limitada figura. Sentiu-se um estranho naquela rua que era sua casa fria e nada doce. Olhou para o céu, queria afrontar a Deus. Esperou alguns minutos para ver se o soberano se manifestava, mas ele era medroso o suficiente para encarar uma pobre alma, em corpo sob a forma de carcaça. Só saiu do transe quando algumas moedas bateram no fundo de sua lata, fazendo-o esquecer o contato divino. Iria comer, enfim!


4 comentários:

Jueiqui disse...

E por esse dilema, diariamente muitos passam. Mas o mais curioso é que eu consigo imaginar cada centímetro visual que o texto vai me proporcionando. Cada frase vai tecendo, com letras, imagens. E aos poucos é possível figurar absolutamente todo o panorama da narrativa, Lana. É o luxo! Adorei. Me dá um pão?

Daysiane Figueiredo disse...

Se a história não fosse tão real para muitos, teria ficado mais feliz ao ler esse post. Mas isso não me priva de te parabenizar por mais esse escrito! Mais uma vez: adoro seus textos!
Bjo irmã!

Larissa Araújo disse...

Que texto perfeito!
Amei amiga, muito bom mesmo!

Ilana disse...

Era esse lary, o texto que falei que quase não terminava, pq nunca achava bom ahuahha..

mas como eu estava/ estou em uma época sem inspiração... Não tem tu, vai tu mesmo.